G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira
G.R.E.S Estação Primeira de Mangueira
Mestre Sacaca do Encanto Tucuju - O Guardião da Amazônia Negra
Apresentaçao
Seguindo a missão de exaltar as brasilidades em verde e
rosa, a Estação Primeira de Mangueira apresenta o enredo
“Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia
Negra”, enaltecendo as tradições afro-indígenas do Norte
brasileiro por meio de um dos seus mais célebres
personagens.
Nessa épica saga amazônica, é momento da celebração do
Turé – ritual de agradecimento a seres de Outro Mundo.
Invocado por sua plenitude e em estado de encantamento,
Mestre Sacaca se manifesta espiritualmente para nos
mostrar, como em delírio catártico, sua gente, seu lugar, seus
mistérios e saberes. Eis a presença viva e vital do nosso
Xamã Babalaô!
Tomada pela magia das matas, a Estação Primeira adentra a
floresta e apresenta o fascínio de quem leu, rezou e benzeu
as suas folhas, cascas, frutas e sementes. Curandeiro, folião,
marabaixeiro e defensor dos povos da floresta, esse ser
revive os seus caminhos de aprendizado e valorização da
identidade amapaense. Em glória, nosso herói reside na alma
do povo tucuju, como carinhosamente se denominam os
seus conterrâneos.
A Mangueira evoca a força das populações tradicionais para
beber da sabedoria ancestral de um dos seus maiores
expoentes, que nos guia e se revela como a própria
Amazônia Negra
PRIMEIRO ENCANTO
TURE PARA O XAMA BABALAO
Estou no Turé e lhes conto que ainda não tocou o cuti porque
a dança não terminou. Pelo contrário, eu diria. Ela está
apenas começando. E está começando no Norte, onde o meu
país começa.
É no início dessa história que alastro as minhas raízes
brasileiras para esse ritual de agradecimento aos invisíveis
do Outro Mundo.
Sigo em movimento, mesmo plantada entre Sumaúmas que
fazem de mim, a quase centenária, aprendiz e mensageira.
Junto com as lahen, distribuo o caxixi na cuia do mesmo tipo
que veste as mulheres também trajadas de saia de buriti. A
festa acontece cercada de varas de madeira, no circular
lakuh. Eu, Mangueira, estou na floresta amazônica brasileira,
envolvida nesse transe.
Urucu, jenipapo e kumatê tingem a minha visão. São tons da
natureza que pintam desde as cuias que guardam o sabor do
beiju de mandioca até os enfeites criados com penas dos
peitos das araras, que se encostam nas cabeças daqueles
que festejarão os espíritos.
O pakará está posto para o líder pegar o maracá e os cigarros
de tawari. É hora da viagem. Jãdam têm nas mãos os seus
bastões e os palikás puxam os cânticos junto com o pajé. Os
sons das flautas e das buzinas de bambu se alastram junto às
palavras entoadas aos ancestrais. Um deles, especialmente,
veio nos ver. Eu estava aqui aguardando por ele.
A energia avassaladora toma o espaço e me faz confirmar:
não há morte para quem sonha. A presença dele é inegável
porque nunca deixou de ser. Já estava aqui, sempre esteve. E
agora, mais do que nunca, o Xamã Babalaô veio para nos
embrenhar nesse encanto tucuju que vive como só ele.
SEGUNDO ENCANTO
MERGULHO NAS AFLUENCIAS
As águas doces serpenteiam todo o território, espaço de
façanhas e atributos de tantos sentidos. Princípio de todo
um lugar, são o meio e o fim. A natureza em ação,
carregando histórias, tradições e segredos por caminhos tão
barrentos quanto extensos.
O Xamã Babalaô navega em um afluente do Uaçá, nada pelo
Rio Curipi, consolida seus laços históricos e hereditários com
os povos indígenas da terra tucuju. No curso das águas,
visita, aprende e confirma as sabedorias dos Galibi Kali'na,
Galibi Marworno, Karipuna, Palikur e Wajãpi. Assim como ele,
reconheço em mim a sua ancestralidade.
As correntezas nos levam por todos os lados, e as
comunidades quilombolas também dependem das águas.
Pelo Rio Jari, chegamos a diferentes povoados. Conversando
com os extrativistas e as mulheres que trabalham com as
castanhas, ele se comunica com aqueles que dividem uma
memória negra que eu também descortino.
Tudo se baseia nos rios: circulação, movimento, mitos,
rituais, vidas. Os ribeirinhos carregam conhecimentos
profundos desse universo e os recriam a cada milagre da
maré. Se ela desce, se ela sobe. Se está boa para ver um
sumano. Se é momento de pesca, se é tempo de rede.
Aqui, sobre o rio, tudo se sabe. Só há uma dúvida, alguns me
contaram, de seres de formas fantásticas e de outras
realidades, os quais, assim como o Xamã Babalaô, tocam as
nascentes e as profundezas. Nelas, é certa a companhia
distinta de animais e outras formas de energia.
O Xamã Babalaô entra na palafita amparada de palmeiras
buçu, relembrando as tecnologias e as invenções de seu
povo, além das místicas da sua gente. Contempla os
regatões do presente, o transporte dos sacos das farinhas e
a alegria das brincadeiras dos inocentes, que também
lembram as minhas crianças.
Atravessamos as vivências de quem boia, mexe e se banha
de um jeito só seu. Pelos rios, a poesia e o encanto se
alastram para entender a beleza de um lugar e um modo
novo de se viver que só quem viu o Amazonas sabe entender.
Os rios carregam de um tanto. Foram decisivos na vida do
nosso encantado e continuam sendo a base de muito o que
se conhece. Levam e trazem embarcações e seres, produtos
e família. A todo o tempo, gente e mistério.
TERCEIRO ENCANTO
O PODER DA CURA NA CIENCIA DO ENCANTO
Se o rio foi o caminho para trocas, nessa saga, a floresta é
quem lhe entrega o dom. Ao emergir das marés amazônicas,
outras águas me fazem mergulhar nas histórias que
transformam o Tucuju em encanto. O Xamã Babalaô me
convida para um cenário de velhas chaleiras com infusões,
em que garrafadas são preparadas contra qualquer um dos
males que podem acometer quem ousa viver.
A sua existência, que um dia foi chamada de Doutor da
Floresta, agora é revivida ao compartilhar as receitas que
deixou no imaginário popular, nos estudos que viraram
livros, na voz ouvida pelas ondas difundidas pelo território e
em cada uma das memórias dos mistérios das ervas,
carregados por aqueles que dominam como ele a ciência do
encanto.
Sementes, flores, folhas, cascas, seivas e um tanto mais que
o mundo dá permitem outras possibilidades de persistir
entre a dor e a cura, entre a folha e a oração. A floresta
entrega aquilo que revigora. Submete as pessoas à
necessidade de existir. Como também sou natureza viva que
faz viver, sei o que digo.
A medicina ancestral, fruto dos saberes indígenas e negros,
une-se aos murmúrios das matas. O sopro no ouvido de
quem está em Outro Mundo também dita os movimentos
das mãos daqueles que manuseiam um divino chamado
natureza.
Não se enganem, são sagrados os segredos do cuidado.
Engarrafar a floresta é entender que os seus conhecimentos
e sabedorias são práticas de cura, desenvolvidas desde um
tempo muito antigo por quem ocupa essa terra desde
sempre. Entendimentos herdados das tradições orais
passadas de geração a geração. Crendices que misturam o
que é alcançado pelas mãos com as mandingas - práticas
invisíveis aos olhos - como ensinou um encantado Preto
Velho. Saravá!
Ele transforma esse extrato em banhos, chás, gargarejos e
unguentos. Simpatias, para quem tem fé, também dão certo.
Quebra quebrantos, faz criança andar, sujeito parar de beber
e mal de sete dias acabar.
Como fazia em outros tempos, o Xamã Babalaô pede licença
para adentrar as matas. Observa ao seu redor e parece falar
com aquilo que nem eu sei o que é. Pode ser feitiço.
Reconhece uma casca no chão, pega outras frescas, entende
que a troca com a natureza é vital. Reza, pede, intercede.
Respeita os ciclos. Extrai do ambiente o sustento para o seu
povo, demonstrando a riqueza da Amazônia: o que dela se
retira, o que com ela se faz. O que a ela se retribui, para
mantê-la e nos manter de pé.
QUARTO ENCANTO
OS TAMBORES RESSOAM
De pé na floresta, houve um chamado. Som e energia
reverberam pelo ar. Ondas de encanto. O Xamã Babalaô está
tão envolvido quanto eu quando ouço a subida do tamborim.
Continuo vendo a mesma natureza que observei nos
remédios de cura. As árvores que viviam nas garrafadas,
agora, são tronco oco de tambor. As sabedorias ancestrais
permanecem a base das manifestações que se apresentam a
nós.
Çai Erê, disseram alguns originários, até batizar a festa que
seria tocada com uma única baqueta, conforme mandam
outras celebrações dos donos daquela terra. No Sairé do
Carvão, contemplamos a síntese dos tucujus afro-indígenas.
Nos encantamos por ela, mas logo o Xamã Babalaô aponta
para a fogueira de esquentar couro e afinar as raízes do
Batuque. Dois tambores, o amassador e o dobrador. Dois
pandeirões. “Vieram lá de África”, escuto cochichar a
quilombola que puxa o verbo e solta as bandaias para
acompanhar o pessoal que senta nos macacaueiros presos às
peles de sucuriju.
As mulheres rodando e puxando vento com a barra da saia
me lembram outro movimento que vira o mundo ao antihorário.
No giro e na gira do Marabaixo, salve o Divino Espírito Santo
e a Santíssima Trindade. E salve as energias que pairam
naquele toque, naquela circularidade, naqueles Mestres com
quem ele tanto conviveu.
Já vejo as minhas flores nas saias e nos cabelos das
açucenas, enquanto meu povo gargalha tomando gengibirra
e aprendendo os ladrões como o que fizeram para o Xamã
Babalaô, que volta para o cortejo da vida por meio dessa e
de outras canções. Atraído pelos ritmos que ressoam, cada
um mais forte do que o outro, passeamos pelos terreiros de
cultura, entre a Favela e o Laguinho. Vejo aquela gente e
aquelas salas como se do Morro fossem.
Nesses barracões, aprendo a saudar as matriarcas daqui que,
assim como as minhas, ensinaram que o certo é pela nossa
cultura se espalhar. Então, bora se requebrar, preparar para
muito gingado, porque quando os tucujus e os
mangueirenses dançam os mundos se movem. Xamã
Babalaô, marabaixeiro, sempre soube e sempre saberá.
A virada da caixa que arrepia ganha outros contornos
históricos para além da dança que um dia foi de lamento. Em
Mazagão Velho, a Festa de São Tiago ecoa um toque de
guerra que também é toque de gente que aprendeu a
transformar a sua história em batuque e festejo. Com o som
do Vominê, escolhemos máscaras para sermos travessos e
dar um rádio em quem puder.
Essas sonoridades misturadas em diferentes batidas,
chegam ao Encontro dos Tambores, e atraem nosso invisível
para mais uma festividade.
Dos instrumentos do Zimba do Cunani aos atabaques das
macumbas amapaenses, do carnaval em que foi Rei aos
músicos contemporâneos… O Encontro dos Tambores
intensifica os sons e os sentidos para tratar das vibrações
particulares que definem uma espiritualidade amazônica.
As percussões confundem espaço, tempo e religião. Pelo
compasso do tambor, a igreja é o terreiro, o ontem é hoje, o
amanhã é agora. Tudo entra em espiral.
Na Missa dos Quilombos, o Xamã Babalaô retorna batendo
caixa como quem firma chão. Lá, oração também se dança.
Sem precisar de permissão, os corpos não se contêm.
Aqueles toques também são ancestrais, pois redefinem as
condutas de um povo de um jeito libertário. Mães de santo
participam da missa como coroinhas, as ofertas viram frutas
e oferendas e um mundo novo, fundado por ele, pareceu ter
sido criado diante de nós. A entidade adentra o culto sem
espaço para divisas.
Ele encontra na rítmica tucuju a mesma força espiritual
presente em suas curas. Como uma bateria, esses sons
fazem o coração pulsar em sanidade, tratando do passado da
nossa gente. Preservam e reescrevem histórias dos encantos
e das realidades vastas. O tambor celebra.
QUINTO ENCANTO
O GUARDIAO DA AMAZONIA NEGRA
Na saga do Xamã Babalaô – invocado no Turé, navegante das
afluências, engarrafador das florestas, pulsante nos
tambores – eu vislumbro a incessante busca de plantar o
eterno. Ele se transforma no que faz a Amazônia viver,
tornando-se a própria identidade tucuju.
O Xamã Babalaô é o que ficou. Ao tocar o chão da floresta,
dos barrentos, dos quilombos, dos barracões, das missas,
nosso ser se conduziu a ser ele mesmo os elementos que
revelam quem o seu povo é. Torna-se múltiplo, sem limitar a
vida a um corpo ou a uma única forma, como só sabem fazer
os que conhecem os encantos da terra.
Imponente, ergue-se nos mastros, prática cultural de origem
negra. Seja nas bandeiras dos Marabaixos ou das minhas
coirmãs escolas de samba, segue em haste afro-brasileira,
coluna de memória que desafia o tempo e as tentativas de
apagamento. No lenço que balança alto, ele se transforma
em objeto que anuncia as festas de sua Amazônia. Preso na
murta ou no pavilhão, dança com o vento e sussurra histórias
que não podem ser esquecidas.
Resiliente e vigoroso, manifesta-se no cipó de titica, fibra
que amarra parte do mundo e sustenta o fazer. Enlaça casas,
objetos de pesca, redes e segredos com a firmeza do valor
da raiz. Nele, o Xamã Babalaô tece seu nome torcido no
trançado do tempo.
Leal em seus valores, exalta a potência feminina e o
matriarcado que tanto conheço. Mergulha no barro de
Maruanum, em que as mãos negras das louceiras moldam
moringas, panelas e presenças daquela a quem se pede
licença.
A Vovó do Barro recebe o encantado que se dissolve na
argila e ressurge em forma de artefato. Cada peça é uma
oração queimada no forno daqueles saberes.
Escorre no açaí que mancha mão e boca com o roxo atinado.
O Xamã Babalaô vive no sabor do fruto do sustento
amapaense. Está nos dedos que botam o caroço no paneiro,
no remanso da peneira, na garganta que se tinge com gosto
de floresta. É sangue da terra.
Reaparece nos olhos da onça, bicho grande, dono da mata.
Espreita silencioso, passeia firme, guarda os caminhos.
Ameaçada, é a onça o espírito da floresta em regime de
alerta. O Xamã Babalaô estampa agora pelagem e coragem.
Está na pisada leve e na força que pode até não se ver mas
que se sente. Quem cruza com ele sabe: há algo mais ali, um
fundo que escapa à vista e mora no pressentimento.
No flerte com o eterno, o Xamã Babalaô se planta como
amapazeiro. Árvore mãe, árvore nome, árvore estado.
Declama no silêncio da terra úmida e se ergue em galhos
que se expandem, sombra que conforta, seiva que cura pelo
lugar todo. Faz-se tronco, folha, semente e eternidade. Não
partiu, enraizou-se onde tudo começa e recomeça. Ele é a
natureza. À natureza, ele retorna. Na sua Amazônia de
floresta em pé, ao meu lado, encerra uma saga que é
símbolo de uma identidade nacional que tem sabor, cheiro e
textura das memórias do meu Norte.
Ao findar do transe xamânico, pairam no ar essências que
nos entregam o frescor do Brasil. Do sumo daquilo que
melhor poderia se macerar das terras profundas do nosso
país. Das terras do nosso Xamã Babalaô do Encanto Tucuju.
O guardião de toda essa amapalidade, de toda essa
Amazônia também negra, de toda a Mangueira!
Enredo e Pesquisa: Sidnei França, Sthefanye Paz E Felipe Tinoco
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